10
Perigos na Relao do Existencialismo com a Psicoterapia 

E a histria trgica do pensamento humano , simplesmente, a histria de uma luta entre a razo e a vida  a razo 
aplicada  vida racionalizante e forando-a a submeter-se ao inevitvel,  mortalidade; a vida aplicada  razo 
vitalizadora e forando-a a servir como um esteio aos seus prprios desejos vitais. 
 MIGUEL DE UNMUNO, O Sentido Trgico da Vida. 

AINDA no HOUVE tempo para a abordagem existencial na psiquiatria e psicologia encontrar sua forma particular neste 
pas. At data recente, os escritos e conferncias sobre psicoterapia existencial na Amrica pareciam ser uma torre de 
Babel, uma confuso de lnguas. Havia vozes afirmando que a psicologia existencial era adieriana, outras jurando que estava 
tudo em Jung, outras dizendo que ela estava abrangida em Freud, ainda outras que era idntica a psicodrama, e assim por 
diante. A psiquiatria existencial foi identificada com o Zen Budismo e as tendncias anti-intelectuais, por um lado; ou, por 
outro lado, com uma filosofia superintelectual composta de termos alemes intraduzveis. Foi dito que  a terapia que todo 
o mundo faz quando est fazendo uma boa terapia e tambm que  especialmente em sua ala fenomenolgica clssica  uma 
anlise filosfica que nada tinha a ver com a prtica psicoterpica como tal. Esses porta-vozes pareciam estar todos na 
mais santa ignorncia de suas evidentes contradies; se a psicoterapia existencial  uma dessas coisas, no pode ser as 
outras. 
EXISTENCIALISMO E PSICOTERAPIA 
Na estria da torre de Babel, no Livro do Gnese, como o leitor recordara, o Senhor enviou & confuso pata 
castigar o orgulho e a ambio de grandiosidade dos construtores. Desconfio de que um outro propsito ou, 
pelo menos, outra oportunidade que essa confuso de vozes nos impe, em nossos dias, consiste em forar-
nos a superar as tendncias passageiras de moda e propaganda que infernizam e confundem qualquer novo 
movimento de idias, e a indagar de ns prprios, to incisiva- mente quanto possvel, quais so os aspectos 
negativos e positivos da relao atual do existencialismo com a psicoterapia. 
Como j me concentrei em outra parte tios aspectos positivos, citarei aqui apenas algumas das tendncias 
negativas nesse 
relacionamento. 
UMA PRiMEIRA TENDNCIA que, em minha opinio, no 6 construtiva diz respeito  propenso anti-cientifica de uma 
boa parte da psiquiatria e da psicologia existencial. Essa propenso passou a estar associada  tendncia anti-intelectual em 
nosso pas. Um dos abusos de que o movimento existencial em algumas partes da Europa foi o infeliz herdeiro , 
certamente, a tendncia anti-intelectual. Mas no  possvel ser contra a cincia ou a razo como tal. Lembro-me da 
pomposa afirmao de Margaret Fui- ler: Eu aceito o universo, e da justamente famosa rplica de Cariyle: Caramba, ai 
do universo se ela no o aceitasse! Pois a cincia  parte do nosso universo e no faz sentido algum no aceit-lo. O fato 
de muitos psiquiatras e psiclogos sensatos, e outras pessoas inteligentes em nossa cultura, reconhecerem as inadequaes 
do atual mtodo cientfico para um estudo do homem no deve levar-nos a uma tendncia anticientfica mas a um esforo 
para descobrir novos mtodos cientficos que sejam mais adequados  revelao da natureza do homem. Os 
esforos dos nossos colegas europeus, como Binswanger, Buytendijk e Vanden Berg, para desenvolver um contexto 
fenomenolgico para uma cincia do homem, desenrolam-se na direo construtiva. 
O mesmo podemos dizer do anti-intelectualismo. A tendncia para desconfiar da razo como tal, em nossa cultura, 
decorreu do fato de que as alternativas apresentadas s pessoas inteligentes e sensveis lhes pareceram ser apenas um rido 
racionalismo e positivismo, por um lado, no qual se salva a mente perdendo a alma, ou um romantismo vitalista, por outro 
lado, em que parece haver, pelo menos, uma probabilidade de salvar, por enquanto, a alma. 
Os existencialistas  desde Kierkegaard, Nietzsche e Shopenhauer at os modernos psicoterapeutas  so num certo 
157 
sentido, antiintelectualistas construtivos. Eles esto contra a tendncia racionalista compartimentada no 
pensamento ocidental dos sculos XIX e XX. No pretendo, neM de longe, compar-los com os McCarthys, 
os caadores de feiticeiras e outros anti-intelectuais polticos que se empenham em fomentar a ansiedade do 
nosso tempo, gerando hostilidades e dios para fins de seu prprio poder. Os McCarthys esto para os 
pensadores de que venho falando na mesma relao do Nacional-Socialismo de Hitler para o verdadeiro 
Socialismo, ou o coletivismo  ascista para a comunidade econmica e poltica cooperativa, ou qualquer 
sintoma neurtico para uma necessidade genuna. Mas, quando desenvolvimentos destrutivos e neurticos 
ocorrem numa sociedade, como numa pessoa,  quase sempre porque existe alguma necessidade autntica e 
desesperada como causa subjacente. 
Talvez seja til esclarecer a diferena entre intelectualizao  contra a qual os existencialistas se revoltam  e 
anti-intelectualismo. Que ns, intelectuais, somos propensos a ceder s tendncias de compartimentao dos 
nossos dias pode ser demonstrado todos os dias no trabalho psicoteraputico com intelectuais. Como 
pacientes, os intelectuais usam, freqentemente, idias como substitutivos da experincia e da vivncia real. 
Falar sobre problemas  e eles so, geralmente, muito bons conversadores  , com freqncia, a defesa deles 
contra a ansiedade que o problema engendra. Eles agem muitas vezes na suposio de que, se um problema 
pode ser formulado, algo mudou; quando, na realidade, talvez no tenha ocorrido coisa alguma, exceto o 
favorecimento de um falso sentido de segurana baseado na iluso de que uma idia tem realidade intrnseca. 
Certo, a formulao ajuda freqentemente uma pessoa, de fato, a ver o seu problema com mais clareza. Mas 
nunca poder ser um substituto para ponderar, sentir, experimentar o problema. Tambm  certo que a 
compreenso genuna envolve uma certa mudana na pessoa. Scrates no foi ingnuo quando disse que o 
saber  virtude; mas ele aludia ao saber que penetra fundo nas emoes da pessoa, envolvendo a experincia 
racional e irracional, o chamado material inconsciente, a deciso tica etc. No nvel intelectual, essa espcie 
de conhecimento tampouco  meramente intelectualista, porquanto envolve tambm mitologia, crenas 
religiosas e convices econmicas e polticas. 
Pode muito bem ser verdade que, se somos capazes de formular completamente um problema em natureza 
inanimada  isto . matematicamente  chegaremos, ao mesmo tempo,  sua soluo; a formulao e a soluo 
podem ser idnticas. Mas isto no  verdade no caso de pessoas; o envolvimento, participao e engajamento 
pessoais so sempre necessrios, se quisermos que a verdade particular seja real para essa pessoa. Penso que 
a principal razo por que muitas psicanlises de intelectuais no foram bem sucedidas  que os seus problemas 
tendem a ser intelectualizados e um desprendimento pseudo-intelectual toma o lugar do envolvimento 
emocional. 
Em Psicoterapia, temos sido propensos a cometer o erro de dar excessivo peso  verbalizao. A verbalizao, 
tal como a formulao na sesso psicoteraputica, s  til  medida que constitui uma parte integrante da 
experincia. As pessoas em terapia falam, freqentemente, porque tm medo do silncio ou de se 
experimentarem diretamente e  outra pessoa, o terapeuta. Com efeito, quando uma pessoa tem uma introviso, 
ela pode falar longamente e com entusiasmo a tal respeito, com o propsito, precisamente, de dilu-la e evitar, 
assim, a fora total de sua conseqncia. 
Esses pontos so de especial importncia porque, em Psicoterapia, nos nossos dias, a tendncia  para que 
haja relativamente poucos pacientes dos tipos histricos a cujo respeito Freud escreveu e que chegavam ao 
consultrio repletos de emoo reprimida. Em compensao, temos cada vez mais pacientes dos tipos 
esquizides, que aprenderam a mascarar a sua solido e isolamento falando com grande facilidade sobre 
relacionamentos e que experimentam mais de acordo com regras e planos do que diretamente. Muitas dessas 
pessoas que acodem s nossas clnicas no so intelectuais, em qualquer acepo profissional ou sria, mas 
leram muita coisa sobre psicanlise, psicoterapia, complexo de dipo e Deus sabe que mais e j se mostram, 
freqentemente, competentes para discutir os seus problemas com grande mincia. Parece q.e todo o mundo, 
em nossa idade esquizide, est tentando ser um intelectual  no mau sentido, isto , tentando superar os 
problemas de sua vida falando  e acredita que teve xito se conseguir que a sua conversa tenha um ar 
cientfico e racionalmente respeitvel. 
O perigo de que a abordagem, existencial, em Psicologia e Psiquiatria, faa o jogo do desprendimento e da 
intelectualizao  particularmente sedutor, porque o emprego de termos existenciais d uma aparncia de se 
lidar com a realidade humana, quando nada disso pode estar sendo feito. Muitos de ns temos criticado a 
psicanlise ortodoxa porque a sua tcnica pode ser usada como uma cortina conveniente, atrs da qual o 
terapeuta pode esconder-se no chamado espelho impessoal, evitando o encontro total, a presena plena na 
relao com a outra pessoa. 
159 
Um tal encontro tem o poder de abalar-nos profundamente e  gerador de ansiedade, assim como gerador de alegria. Por 
conseguinte, os terapeutas devem estar cnseios de todas as tendncias para evitar o encontro, incluindo a tendncia para o 
desprendimento, tanto filosfico como tcnico. 
Ora, a abordagem existencial no pretende ser racionalista nem anti-racionalista, mas procura a base subjacente, na -
experincia humana, em que tanta a razo como a no-razo se aliceram. No devemos ser pseudologistas, 
adverte-nos Scrates, mas o logos deve ser feito carne. 
O ensaio de Paul Tillich, Existentialism and Psychotherapy, 1  um esplndido exemplo la profunda unio da razo com 
o inqurito existencial que ultrapassa o mero racionalismo. Tillieh  existencial sem rejeitar as essncias e a estrutura lgica. 
A 
obra erudita de R. D. Laing tambm me parece mostrar esse empenho. 

A SEGUNDA TENDNCIA negativa  a tendncia para identificar a psiquiatria existencial com o Budismo Zen. O interesse 
generalizado em Zen, especialmente entre os intelectuais deste pas, foi um sintoma das construtivas indagaes religiosas 
dos nossos dias. Devo declarar desde j que tenho um grande respeito pelo Budismo - Zen, tal como-  representado por 
aqueles que sincera- mente - se lhe dedicaram, como Suzuki. Tambm aprecio as iaterpreta&es srias de Zen por autores 
ocidentais, apesar da minha discordncia com algumas de suas teses. O Budismo Zen tem importncia genuna como um 
corretivo ao nosso superativismo ocidental; a sua nfase no imediatismo da experincia, em ser mais que o mero fazer, 
constitui um grande alvio e oferece uma orientao significativa a muitos ocidentais amargamente aturdidos e arrastados 
pela competio. 
Mas a identificao do Budismo Zen com a psiquiatria existencial  outro assunto.. Esquematiza excessivamente ambos. 
Um de meus -colegas, realizando pesquisas num hospital mental, sustenta que realizou repetidamente satori por meio do 
cido lisrgico. Depois, retrocedendo da experincia da droga, escreve ele, atingi finalmente satori, repetidas vezes, sem 
a droga. Ora, satori  o resultado -de anos de disciplina. Se podemos realiz-lo to facilmente por meio de drogas, para que 
precisamos do Budismo Zen ou de qualquer outra religio? E se podemos superar o desespero, a angstia, a angst da vida 
dessa maneira, certamente no precisaremos da psicoterapia para coisa alguma. Como William Barrett perguntou, em sua 
crtica de um livro de Alan Watts no New York Times, referindo-se a uma afirmao semelhante de Watts de que atingira 
satori por meio de drogas, com base em que critrios podero as autoridades decidir quem recebe a droga e quem no a 
recebe? 
A ligao entre o Budismo Zen e a psiquiatria existencial supersimplificados comporta, conforme observei, a tendncia 
para contornar e evadir a ansiedade, a tragdia, a culpa e a realidade do mal. Uma das contribuies duradouras do 
movimento psicoteraputico, em todas as suas formas, foi ajudar as pessoas a admitirem francamente e a enfrentarem a sua 
angst, hostilidade e culpa, tanto psicolgica como culturalmente, em face da realidade do mal e da destrutividade reinantes 
no mundo. A abordagem existencial  a realizao da individualidade, no pela evitao das realidades conflitantes do 
mundo em que vivemos (o qual, para ns,  forosamente a cultura ocidental), mas fazendo diretamente frente a essas 
realidades para realizar a individualidade e estabelecer relaes interpessoais significativas. 
 importante fazer estas criticas, para que a contribuio positiva do pensamento oriental ao nosso paroquialismo 
ocidental no se perca. O Budismo Zen tem tido e continuar tendo (se os seus adeptos no o levarem a encalhar) um 
significado radical como corretivo  vontade e  conscincia superindividualizadas do homem ocidental. 
Uma palavra final sobre o sn e as outras drogas alucingenas.  difcil ter uma percepo equilibrada deste tpico na 
atmosfera fbica e contrafbica contempornea. Os que tomaram a droga tendem a falar dela como uma experincia religiosa 
e so irracionalmente pr, ao passo que os que so contra o uso das drogas  e neles se inclui uma boa parte do mundo 
oficial, no momento presente  esto irracionalmente temerosos de ameaas  sua prpria racionalidade. Farei alguns 
comentrios sobre as drogas, baseado na extensa pesquisa levada a cabo pelo William Alanson White Institute  o grupo 
profissional a que estou ligado sobre o uso do isn na psicoterapia. 
Parece no haver dvida alguma de que, de uma forma geral, os terapeutas que fizeram a pesquisa acreditam na utilidade do 
LSD em terapia. (Eles administram uma dose muito menor do que a que  tomada para fins de experincia mstica e 
religiosa.) Os pacientes, quando lhes  administrada a droga, parecem caracterizar-se por maior emocionalidade, declnio na 
conduta defensiva, afrouxamento das associaes e capacidade para se envolverem na situao imediata e passarem a 
preocu 
161 
par-se intensamente com eles prprios. A maioria das pessoas que toma a droga relata uma experincia 
positiva, que vai da euforia ao xtase. Mas as pessoas que tm uma tendncia para a desorganizao tornam-
se definitivamente desorganizadas e entram num doloroso estado psictico. A designao de dilatador 
mental  um nome errado para a droga. Na Europa, onde ela vem sendo usada h mais tempo, chama-se-lhe 
dissolvente mental em vez de dilatador mental (isto , psicoltico em vez de psicodlico) e a primeira 
designao  mais exata. Pois a droga, propriamente dita, nada pe dentro da pessoa; ela, simplesmente, torna 
possvel, atravs da decomposio de certas funes mentais, que a pessoa experimente o seu eu e o mundo 
com intensidade telescpica. O campo de viso da pessoa  ampliado e concentrado e ela poder sentir-se em 
contato com uma experincia primeva e original que, supostamente, antecede a dicotomia sujeito-objeto. Mas 
no  desejvel nem possvel viver permanentemente nesse nvel. Os indivduos promscuos e diletantes que 
tomam a droga parecem, freqentemente, embotar a relao da pessoa com a realidade, resultando numa 
atitude ingnua e grosseiramente simplista em relao  vida. A verdadeira questo  esta: Qual  a nova 
estrutura do eu que a pessoa constri? 
Os meus colegas que pesquisam intensamente nesse campo informam no existir prova alguma de que o uso 
do i.sn aumente as capacidades criadoras de pessoas criadoras. 2 Poder chocar suficientemente as pessoas 
no-criadoras, de forma a descobrirem em suas vidas algumas possibilidades criativas. Mas o valor ou a falta 
de valor de tomar a droga reside na preparao e elaborao da experincia subseqente. As pessoas que 
tiveram bastante anlise mas se defrontam com obstculos e bloqueios, e as pessoas que tiveram disciplina 
religiosa, parecem ser as mais ajudadas. Proponho uma atitude positiva sobre as possibilidades de 
semelhantes drogas. Mas, na mesma ordem de idias, tambm proponho que a f religiosa em que esta ou 
qualquer droga ser a panacia que nos eleva a um admirvel mundo novo, livre do dilema humano,  uma 
iluso ingnua e enganadora. Na devoo  droga, escuto um grito angustiado contra a nossa sociedade 
esquizide e despersonalizada: Necessitamos de alguma coisa  qualquer coisa  que nos habilite a sentirmo-
nos de novo pessoais! 
UM TERCEIRO PERIGo na psiquiatria e psicologia existenciais decorre diretamente do acima exposto.  a 
tendncia para usar termos tais como transcendncia, encontro, presena, como um modo de contornar 
a realidade existencial. Ouvimos em debates e lemos em artigos, por exemplo, referncias  transcendncia 
que supostamente ocorre na psicoterapia como transcendncia da dicotomia sujeito-objeto entre terapeuta e 
paciente, transcendncia da dicotomia corpo-mente, transcendncia do pensamento dualista, 
trancendncia da barreira epistmica entre o homem e a Realidade ltima [Deus] . O termo encontro  usado 
 ou, melhor, mal usado  com uma espcie de halo, para adornar os problemas muito difceis dos 
relacionamentos interpessoais e a sua distoro; e o termo presena  erroneamente empregado para 
encobrir o fato de que compreender genuinamente uma outra pessoa  um processo muito difcil na melhor das 
situaes e nunca  possvel num sentido completo. 
O que acontece numa tal abordagem  que, praticamente, todos os velhos problemas da existncia humana, 
com os quais os pensadores tm lutado desde que nasceu a conscincia humana, so contornados por uma 
simples palavra. Foi argumentado que, na transcendncia do pensamento dualista, por exemplo, o terapeuta 
usa o modo de pensar que est alm da linguagem e das imagens simblicas, que ele est livre dos conceitos 
que dificultam a capacidade de ver o que realmente , e que em tais momentos de entendimento no h 
entendedor, 
Mas os smbolos, a linguagem de uma forma ou outra, so sempre a forma e o contedo de qualquer 
pensamento. No ser manifestamente impossvel usar o modo de pensamento que se coloca alm das imagens 
simblicas? A abordagem fenomenolgica de Husserl  freqentemente aplicada, de forma errnea, no sentido 
de que o psicoterapeuta observa um paciente sem quaisquer conceitos pressupostos na mente do terapeuta. 
Mas isso  inteiramente impossvel. Os conceitos so a orientao me5 Podemos manifestar empatia com esse 
grito angustiado sem esquecer a ironia da situao: o apelo s drogas comete o mesmo equvoco que a 
tecnologia, isto . esperar que algo seja introduzido de fora do individuo para salv-lo. 
163 
diante a qual a percepo ocorre. Sem a pressuposio de alguns conceitos, o terapeuta no veria o paciente 
que est na sua presena, nem coisa alguma a seu respeito. 
Deve certamente existir um entendedor para que haja entendimento. Estou perfeitamente a par dos 
argumentos, muitas vezes baseados no Budismo e outras religies orientais, de que, em momentos de 
profundo entendimento, e como se as duas pessoas estivessem numa completa fuso. Mas isso  uma 
dimenso religiosa e apenas confunde a religio e a cincia, fazendo-as idnticas  psicoterapia. A experincia 
subjetiva de fuso que ocorre justamente entre terapeuta e paciente  a de alternao instantnea com o 
plo objetivo, notadamente, a conscientizao por parte do terapeuta de que ele , de fato, o terapeuta, no o 
paciente, e de que ele ajudara genuinamente o paciente  medida que, em sua prpria integridade, no renuncia 
 sua identidade. 
Existe um outro valor, teraputico e moral, em manter clara a distino entre as duas pessoas. Pois se o 
terapeuta compreende que est sempre vendo o paciente atravs de seus prprios olhos, compreendendo o 
paciente  sua prpria maneira, por muito arguto, ou bem analisado, ou tolerante que ele seja, estar cnscio de 
que a sua compreenso , em certa medida, sempre limitada ou parcial. Isto favorece a humildade, uma 
qualidade de perdo e de compaixo nas relaes humanas que  altamente teraputica. Se o terapeuta no 
assumir essa atitude mas tornar a sua prpria percepo e compreenso absoluta, ele dominar 
automaticamente o paciente pelo seu prprio subjetivismo, um perigo contra o qual Sartre nos advertiu. Nesse 
caso, o terapeuta estar seguramente se arvorando em Deus, como se dispusesse de uma tcnica absoluta. O 
terapeuta existencial pode superar, at onde for possvel, a sua prpria tendncia para imobilizar o paciente 
pela subjetividade, se reconhecer, em primeiro lugar, as suas prprias limitaes e inclinaes. Uma vez que 
estas tenham sido reconhecidas, a abordagem fenomenolgica pode ser de grande ajuda, como muitos de ns 
j descobrimos, para vermos e relacionarmo-nos com o paciente tal como ele realmente . 
Um perigo final consiste em fazer da psiquiatria existencial uma escola especial. Existem srios erros, em minha 
opinio, numa tal abordagem. Um deles  que no pode haver qualquer psiquiatria existencial especial, como 
Leslie Farber observou muito bem, como no pode haver uma psiquiatria hegeliana, platnica ou espinosiana. 
O existencialismo  uma atitude, uma abordagem dos seres humanos, no uma escola ou grupo especial 
Tal como qualquer filosofia, tem a ver com os pressupostos que esto subjacentes na tcnica psiquitrica e 
psicanaltica. 
 duvidoso, por exemplo, se faz algum sentido falar de um psicoterapeuta existencial, numa acepo tcnica, 
nesta fase do desenvolvimento do movimento. A abordagem existencial no  um sistema de terapia  embora 
d contribuies sumamente importantes para a terapia. No  um conjunto de tcnicas  embora possa dar-
lhes origem. , antes, uma preocupao em compreender a estrutura do ser humano e sua experincia, a qual 
deve, em maior ou menor grau, estar subentendida em toda a tcnica. Muitos dos que se intitulam 
psicanalistas existenciais j pressupem um longo e complexo adestramento em Psicanlise ou alguma outra 
forma de terapia.  
No estou sugerindo, obviamente, que a abordagem existencial deve estar aliada quela forma particular de 
psicoterapia chamada psicanlise. Tampouco nego que as atitudes e pressuposies sobre os seres humanos 
sero mais determinantes (como os estudos de Rogers mostraram) do xito da psicoterapia do que qualquer 
escola tcnica particular a que o terapeuta pertena. Mas no devemos cair no ponto de vista sentimental e 
freqentemente simplista que implica que, na psicoterapia, a mera benevolncia  suficiente. 
H uma outra nfase que, em minha opinio, tambm  um erro: a anlise psicolgica do ser. Ora,  
impossvel analisar o ser e, se isso pudesse ser feito, seria uma coisa nociva, O ser deve ser pressuposto na 
psicoterapia, no analisado. O ser de um indivduo manifesta-se, por exemplo, em seu direito de existir como 
pessoa, em suas possibilidades de respeito por si mesmo e em sua liberdade bsica de escolher o seu prprio 
modo de vida. Tudo isto deve ser pressuposto quando trabalhamos com um paciente, e se no pudermos 
pressup-lo a respeito de uma determinada pessoa  prefervel no trabalhar com esse paciente. Tentar analisar 
essas provas de ser  violar o ser fundamental da prpria pessoa. Fazer com que as nossas atitudes tcnicas 
influam no prprio ser  repetir o mesmo erro pelo qual os existencialistas justamente criticam no s a 
psicanlise clssica mas toda a nossa cultutg, isto , a subordinaco da pessoa s tcnicas. Analisar a 
psique, como na Psicanlise, j  bastante difcil e dever ser feito unicamente dentro de certos limites. Os 
bloqueios que a pessoa sofre, que no lhe permitem adquirir um adequado 
164 

amor prprio, por exemplo, podem ser analisados. Mas isso  uma coisa muito diferente de analisar a ontologia, pondo em 
questo as qualidades fundamentais que constituem a pessoa como um ser humano. Analisar o ser  paralelo a reprimi-lo, 
no sentido de que o subordina a uma atitude tcnica; com a diferena de que analisar o ser  um pouco mais pernicioso,  
medida que fornece ao terapeuta uma bela racionalizao para a sua represso e o alivia da culpa por seu fracasso em 
manifestar a reverncia e a humildade com que o ser deve ser justamente olhado. 
Uma outra maneira de expressar a nossa crtica  nfase sobre a anlise psicolgica do ser  que a psicanlise comea 
onde a ontologia termina. Como Sartre disse muito bem, as descobertas finais da ontologia so os princpios primeiros da 
psicanlise. 6
Tendo citado todas estas crticas, termino dizendo que acredito que o movimento chamado existencialismo, no pensamento 
moderno, proporcionar uma contribuio mpar e altamente significativa para o futuro da Psicoterapia. 
 
